As ruas passam;
Mudam de lugar,
de nome,
cara
e de trajeto.
Muda o que cobre o solo,
o solo descoberto.
Mudam as gentes,
que fazemos
que são;
os bichos,
as plantas.
Tudo morre. Muda de lugar.
Calendários passam,
Tudo isso.
Olhos fechados,
ar úmido,
e o vento corta meu rosto
a gota que ensopa.
E a chuva
só
é a mesma.
Que é do lado de lá
coisa a mais
coisa além?
Que é de sombra
e alma
e luz
e dor?
Que é de cor?
Quando a mulher-pássaro
não puder mais voar
Se eu morrer
que me lembrem assim,
na delicadeza do túmulo
da urna
do jardim.
A escada lá,
A escada ali.
Sobe ou desce
eis a questão
de ponto de vista, claro.
Neste dia perdi um amigo.
Amigo é pouco. Neste dia perdi um irmão.
Da dor da morte já sabíamos ambos. Não foi isso. Foi separação. Foi decisão, rompimento, foi um adeus unilateral, ácido, amargo, cru. Doeu.
Os dias na França me atiçavam saudade quando as palavras chegaram pelo ar, unstoppables, poucas, afiadas pontiagudas. Punhalada no coeur, isso sim. “Não me escreva mais, não me ligue mais, não me procure mais” - uma linha. Na outra, abaixo, “desejo-te toda a felicidade do mundo mas quero você fora da minha vida”.
Ledo engano, ex-amigo. Não estarei jamais fora da sua vida. Sou você e você sou eu, é o que se passa quando duas almas compartilham sucesso, projetos e perda por tanto tempo. Por mais que você queira, por mais que sua nova esposa queira, só podes ser quem és hoje por minha causa, entre outras coisas mais. Eu por sua. Estarei sempre aí em quem quer que você se transfigure. Na sua família, na sua irmã, no seu pai, na saudade da sua mãe.
Quando tudo der errado, e eventualmente dá, ainda estarei aqui. Porque assim são os verdadeiros amigos. Quer dizer, irmãos.
Ela ali, aposentada, olhava. Apontava o fim de tarde, mapas de ruas antigas que não existem mais. As baguetes para o café, tartines, goles de vinho na brasserie mais perto. Ela cerca. Dobrando a esquina meus pés a encontraram, saudosos, ávidos pela corrida impossível. Um tweed quem sabe, uma boina e já não era mais 2009, aquela Lyon.
Morro de vontade de voltar a pedalar.
chega a primavera
porque meu amor
são gatinhos no quintal
Se te vejo, história
não perdoa
afina mansa
inverdade
Balbucio, história
me caçoa
vinga lança
mas é tarde
A vagina, é, mulher
A vulva, é, mulher
O sangue.